NoIndex Link

Sérvulo Esmeraldo – A genialidade do mestre da arte cinética

0


A carreira artística de Sérvulo Esmeraldo teve início, ainda na infância, na região do Cariri, com a xilogravura. Quando jovem, mudou-se para a cidade de Fortaleza, passando a integrar a SCAP – Sociedade Cearense de Artes Plásticas. Em 1951 fixou-se em São Paulo, onde entrou em contato com o meio artístico local. Lá trabalhou na EBE (Empresa Brasileira de Engenharia) – etapa decisiva na formação do escultor que viria a ser – e no jornal Correio Paulistano como ilustrador. Com participações em Salões de Arte, realizou duas exposições individuas na capital paulista, 1956 e 1957, antes de embarcar para a França, onde viveria um longo período.

E foi em Paris que ele amadureceu profissionalmente, somando a seu currículo o estudo em litografia na Escola Nacional Superior de Belas Artes, com bolsa do governo francês. Na década de 1960, Sérvulo integrou o movimento da arte cinética, trabalhando com quadros e objetos movidos pela eletricidade estática, que chamou de Excitáveis. Assim, conquistou um lugar de destaque na arte brasileira, fruto de muito talento, aliado à disciplina e à determinação, características inerentes do povo nordestino.

Escultura do Monumento ao Jangadeiro, referência constante do artista, cujas linhas permitem visualizar as jangadas presentes na orla da Beira-mar, uma dentro da outra.

Sérvulo também passou pela pintura, mas não foi nela que alcançou sua maior grandeza, e sim nas esculturas, entre o concreto, o geométrico, o cinético, sem abrir mão da leveza e da sutileza das formas. Mantinha em suas obras uma relação muito forte com a matemática, disciplina preferida do artista. Até por essa razão, o círculo, o quadrado e o triângulo estavam sempre presentes em seus trabalhos: “Esses três elementos estão presentes na maioria dos meus trabalhos, eles ganham um certo encaixe que se une, seria a imagem primeira do meu trabalho”, costumava dizer.

Chifre do prefeito – Icônico monumento da avenida Beira-mar.

Mas talvez o que mais chame atenção em seu estilo é justamente o traçado minimalista. Suas obras evidenciam, de forma simples, aquilo que é realmente para ser dito – e compreendido. Entre nuances e sutilezas, Sérvulo Esmeraldo sabia que o menos poderia ser percebido em suas diferentes formas, traduzindo-se em obras sem acúmulos, sem adornos desnecessários, como maneira de ir direto ao que interessa. Costumava rejeitar o caos, os excessos, proporcionando ao espectador a possibilidade de interagir com seu trabalho. Tudo isso em meio a uma técnica singular, que provavelmente seja fruto do olhar de menino curioso e atento, que desejava que sua arte fizesse parte da vida das pessoas. E foi assim… Muitos trabalhos imersos em espaços públicos como se fossem obras da própria construção urbana, Sérvulo Esmeraldo nos deixou no dia 1 de fevereiro de 2017, há menos de um mês de completar 88 anos, mas seu legado continua presente em muitos cartões-postais da cidade, em especial na Beira-mar. O famoso “chifre do prefeito”, por exemplo, que chama atenção de cearenses e turistas que visitam a famosa feirinha de artesanato da orla, talvez seja uma de suas obras mais icônicas – e muitos, inclusive, desconhecem sua autoria.


Para ele, não bastava a aparência das imagens estéticas, em muitos momentos, brincou com volume e movimento, trabalhando com linhas retas e também sinuosas. Genialidade acima de qualquer conceito. Sua trajetória artística foi exposta no final do ano passado em duas exposições significativas: na mostra “A Linha, A Luz, O Crato”, com curadoria de Dodora Guimarães, sua companheira por quase 40 anos, que conseguiu reunir um conjunto representativo do trabalho de Sérvulo, na cidade do Crato, onde ocorreu sua primeira exposição individual em 1951. A última aconteceu na Basiléia, Suíça, em dezembro de 2016, na Casa de Leilões Beurret & Bailly. Foi uma retrospectiva de 80 peças criadas por ele de 1957 a 1975, quando ainda vivia na Europa, fechando o ciclo do artista de forma honrosa.

Compartilhe.

Deixe Uma Resposta